Parto humanizado (que não é sinônimo de parto normal)

Cerca de um mês atrás vi o trailer do documentário independente “O renascimento do parto”,de Érica de Paula e Eduardo Chauvet.  Para saber mais sobre o documentário, clique aqui.

Foi inevitável lembrar de minhas duas gestações e partos e é com base em minha própria experiência que escrevo esse post e me posiciono a favor do crescente movimento que chamam de parto humanizado. Cliquem aqui e saibam um pouco mais sobre o que ele significa. Já adianto que não se trata de um tipo de parto, mas de práticas associadas ao período da gestação, ao parto – seja ele cesariana, parto normal ou parto natural – e também ao pós parto.

Confesso aqui uma frustração: não tive, em nenhuma de minhas duas gestações, a experiência de passar por um trabalho de parto, portanto não conheço a dor do parto. Conheço apenas a dor do pós parto, que, no meu caso, durou cerca de 15 dias após as duas cesarianas a que fui submetida.

Na primeira, eu aguardei os sinais de parto pois dava preferência para o parto normal, e no último mês visitava o consultório do obstetra semanalmente. Estava entrando na 41ª semana de gestação quando o obstetra me monitorou com doppler em seu consultório por cerca de 40 minutos. Fez também ultrassom, exame de toque e diagnosticou: tudo bem com mãe e bebê, placenta e líquido amniótico também bons, apenas 3 centímetros de dilatação, contrações bastante espaçadas e de pouca intensidade, e opinou: “Você provavelmente sequer sabe que está tendo contrações, de tão fracas que são.”  Realmente, eu não fazia idéia que já vinha tendo contrações.

Dito isso, o obstetra explicou que, hoje em dia, não se costuma deixar gestações passarem de 40 semanas e sugeriu a cesariana.  Seria melhor fazê-la enquanto estava tudo bem com mãe e bebê do que fazer cesariana de emergência.  Concordei e lembro exatamente das palavras que usei: “Pena, queria muito parto normal. Mas o senhor é o profissional e devo confiar em seu diagnóstico e no que me recomenda. Vamos marcar a cesariana.”  Fui verdadeiramente sincera naquele momento, não menosprezo os avanços da medicina e penso que devemos usá-los a nosso favor. Assim, dia 19 de julho de 2007 eu já amanheci no Hospital Gastroclínica, em Fortaleza. Às 6 horas daquela manhã, acordei com a camisola molhada na região dos seios.  O colostro já estava saindo e pelo que havia lido durante a gestação, aquele era um dos vários sinais de que meu corpo já se preparava para a chegada do bebê.  Apeguei-me àquela informação e, para superar o medo que sentia naquele momento, pensei: “devo ir tranquila à mesa de cirurgia, é sinal que hoje deveria ser mesmo o dia da chegada do bebê.”  Assim eu procurei acalmar a mim mesma, pois tenho pavor de intervenções cirúrgicas, não importa o quão simples me digam que sejam.  E vocês sabem, cesariana é uma cirurgia e não se encaixa na categoria “simples”.

Minha mãe me acompanhou em ambos os partos e pedi a ela, nas duas vezes, que acompanhasse o bebê o tempo todo, que não o perdesse de vista. Pois é, deixei a neura tomar conta de mim e temia que fossem sequestrados ou trocados na maternidade.

Às 7:40h do dia 19 de julho de 2007 Gael nasceu. Nosso primeiro contato durou cerca de 40 segundos, rosto com rosto, não o abracei, não o toquei com as mãos que estavam impossibilitadas e estendidas em tábuas que se assemelham à cruz em que Jesus Cristo foi condenado à morte (Sim, tenho forte tendência dramática).

A pediatra então levou o bebê para o bercinho aquecido no berçário e minha mãe foi junto. Hesitou por um instante, segurou minha mão e perguntou: “Posso ir com eles? Se sair da sala não posso voltar, você vai ficar só.” Respondi: “Não tem problema, vai, vai, não desgrude os olhos dele!”

E fique ali, sendo suturada, com todas aquelas novas e estranhas sensações que vêm junto com a anestesia e me faziam perguntar a mim mesma se aquilo era normal ou se eu estava morrendo. Ei, eu avisei que tenho tendência ao drama. Sentia frio, uma certa tontura, tinha noção que estavam fazendo algo invasivo em meu corpo sem realmente saber o que, como e onde. Estava atordoada, e também feliz pois parecia que o bebê estava bem. Ouvia pessoas à minha volta falar de instrumentação e procedimento cirúrgico ao mesmo tempo que falavam dos planos e eventos sociais do final de semana (era uma 5ª feira).

Fui então levada ao quarto e orientada a não falar durante as 6 horas seguintes, para “evitar gases e suas dores”. Não sei explicar cientificamente, mas essa prática nordestina que não é seguida em São Paulo, onde nasceu meu segundo filho, provou-se eficaz. O pós parto do meu primeiro filho foi mais tranquilo pois realmente não acumulei gases. Já no pós parto em São Paulo ,infelizmente, experimentei a dor desses gases que, segundo me explicaram, são abdominais e não intestinais, por isso “não sabem” por onde sair e provocam tanta dor. Portanto, nesse aspecto, ponto para a prática nordestina.

As primeiras horas após o nascimento do meu primeiro filho foram um tanto quanto cruéis para mim (na verdade, no caso do segundo filho, também). Deitada, muda, com frio, ouvindo de todos o quanto Gael era lindo e saudável e vendo meu próprio filho através do visor das câmeras e celulares que o fotografavam no berçário. Foi apenas cerca de 3 horas após o parto que o peguei no colo e amamentei. Estava limpo, vestido, a carinha já não era mais a mesma que contemplei por um breve momento na sala de parto.

O obstetra me visitou perto do horário do almoço para avisar que eu teria alta no mesmo dia, às 18h. Insegura, pedi que me deixasse dormir pelo menos aquela noite na maternidade. Ele concordou e adiou minha alta para o dia seguinte, no mesmo horário. Nesse aspecto, ponto negativo para Fortaleza que visava o leito novamente vago para uma nova intervenção cirúrgica, bem mais cara que meu pernoite pós parto.

Quatro anos depois, meu segundo filho nasceu em São Paulo, na conhecida e bem conceituada maternidade Pro Matre. Quando o obstetra a sugeriu, entrei no site, assisti a um vídeo institucional, conversei com algumas pessoas que confirmaram a boa reputação e expertise do local. Então concordei e fiquei feliz com a escolha. Porém, além da mesma frieza do procedimento cirúrgico cearense, a prática pós operatória, que eu não conhecia e ninguém me explicou de antemão como seria, foi muito pior que a de Fortaleza. Mesmo acompanhando bebê e pediatra para fora da sala de parto, mais tarde fiquei sabendo que minha mãe também foi impedida de acompanhar o bebê até o berçário e sequer conseguia vê-lo através de um vidro. Quando perguntava por ele, enfermeiras apressadas e pouco interessadas em dar atenção diziam apenas que ele estava no bercinho aquecido, que aquilo era praxe. Minha família não podia vê-lo pois o bercinho ficava atrás de uma parede dentro do berçário.

Enquanto isso, eu estava sendo suturada, vi todos deixarem a sala, menos as duas enfermeiras que ficaram responsáveis pelos instrumentos cirúrgicos, lençóis e minha remoção. Sim, naquele momento eu fazia parte dos objetos que deveriam ser recolhidos e passar pela assepsia. Eu puxava conversa, mas as auxiliares ou enfermeiras, não sei bem o que eram, talvez alienígenas, pois eram monossilábicas quando e se me respondiam. Fui levada para uma sala de recuperação, onde recebi ocitocina e analgésicos intravenosos e fiquei ali por aproximadamente 4 horas. Estava muito sonolenta mas ouvia uma parturiente pedir medicamento para diminuir a coceira que sentia pelo corpo. Então lembrei que a enfermeira que me levou até ali avisou que eu sentiria coceira, consequência da morfina perdendo seu efeito. Mas a minha vizinha parecia ser mais sensível que eu. A julgar por sua reação e súplicas, a coceira era praticamente insuportável para ela. Imagino que pouco mais de 2 horas depois, (apenas imagino, pois eu dormi quase o tempo todo na tal sala de recuperação) uma terceira parturiente gritava com as enfermeiras exigindo que fosse tirada dali, que queria ver sua família, exigia notícias do bebê e queria saber se a família tinha notícias dela. Ela realmente estava mais lúcida que eu pois, quando lembro, vejo o quanto tinha razão por estar indignada. Quando finalmente vieram me buscar, assim que minha maca passou pela porta, avistei minha mãe que, olhando em retrospectiva, estava obviamente preocupada e ansiosa e me dizia: “Tudo bem? Ninguém viu o Pablo ainda, só disseram que ele está no bercinho aquecido.” Dopada que eu estava, consegui apenas dizer: “É mesmo? Que estranho.”

Nesse aspecto, só ponto negativo para a praxe da “locomotiva do país”. Ninguém, nem meu obstetra ou equipe da maternidade explicou a mim e minha família sobre a rotina pós parto. Vocês conseguem imaginar quanta besteira passou pela cabeça da minha mãe, meu marido, irmã, sogros, que assistiram o parto por uma janelinha e depois ficaram 4 horas sem saber exatamente o que acontecia comigo e com o bebê? Péssimo, meus olhos enchem de lágrimas ao lembrar e me colocar no lugar deles.

Felizmente se tratava realmente de rotina/procedimento e tanto eu quanto bebê estávamos, dentro daquele cenário, bem. Depois, conversando com outras mães em São Paulo, fiquei sabendo que essa rotina é comum, se não a todas, à grande maioria de maternidades da cidade. Provei e não aprovei.

Por isso hoje, assistindo o trailer do documentário “Renascimento do parto”, lembrei disso tudo. Lendo a entrevista da produtora, Érica de Paula, me identifiquei com sua causa pela humanização do parto. Não há como negar a evolução da medicina e sua importância, não sou uma hippie que acredita que o parto deva ser sempre natural e em casa. Tampouco concordo, baseada em minha própria experiência, que simplesmente marquem cesariana e de preferência na sexta feira, pois com isso voltará para casa no final da tarde de domingo, quando o trânsito é melhor.

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