Infância roubada

vogue kidsJá comentei aqui no blog, criança tem que ser criança.

Não me canso de repetir isso pois tempo é algo que não se recupera e roubar parte da infância considero algo muito grave.  Criança tem direito de ser criança, assegurado por lei (vejam a que ponto a humanidade chegou), conforme o artigo 16, inciso IV do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Volto a bater nessa tecla depois de ver toda a discussão que houve em torno do ensaio realizado pela revista Vogue Kids com meninas por volta de 8 anos de idade em poses sensuais, tal qual modelos adultas: calcinha a mostra, pernas abertas, erguendo a blusa.

Estou atrasada em comentar o assunto em tempos de comunicação 2.0 mas quis beber de diferentes fontes antes de escrever aqui no blog.

Realmente chama atenção o fato de haver tantas pessoas envolvidas numa produção como essa e ninguém ter contestado ou alertado ao fato de se tratar de um ensaio com crianças.  Entre tantos comentários, a jornalista Maíra Kubik foi uma das que lembrou que se trata, mais uma vez, da objetificação do corpo da mulher.  Nesse caso com o agravante de se tratar de mulheres ainda em formação.

A também jornalista e analista de moda Vivi Whiteman lembra que para ingressar no mundo da moda, as meninas começam realmente muito jovens.  No entanto, a própria jornalista comenta que é necessário mais cuidado e debate e que os pais dessas meninas precisam pensar que o tema sexualidade infantil é uma realidade.  Além disso, é necessário que essas crianças tenham autorização dos pais para realizar esses trabalhos.  Em tempos de fortes campanhas que visam combater a pedofilia e o turismo sexual de crianças e adolescentes, me pergunto, qual a motivação dos pais ao permitirem que suas crianças sejam expostas dessa maneira?  Desejo de fama? Desejo de ganhar dinheiro?

O pediatra Daniel Becker, responsável pelo site Pediatria Integral, disse na página do blog no Facebook que trabalhos assim antecipam a vida adulta da criança. “As poses são explicitamente sexualizadas. Do ponto de vista da criança, transforma a menina numa mini-adulta, promove sua objetificação e estimula os valores de consumismo, futilidade, modismo, beleza padronizada, maquiagem como necessidade, adesão a marcas.”   Ele concedeu entrevista à Rádio Brasil Atual, na qual afirma: “A erotização precoce da criança não é algo pontual, é tendência”  e afirma que isso pode incitar a pedofilia.  Para ouvir a entrevista na íntegra, clique aqui.

O MPT (Ministério Público do Trabalho) determinou que a edição fosse retirada de circulação e a revista revista Vogue Kids divulgou nota oficial da qual destaco um trecho: “Seguimos princípios jornalísticos rígidos, dentre os quais o respeito incondicional aos direitos da criança e do adolescente. Como o próprio título da matéria esclarece, retratamos as modelos infantis em um clima descontraído, de férias na beira do rio.”                                                                                                                                                                                                      Foi inevitável rir quando li  a nota.  Meninas de 8 anos de idade realmente divertem-se nas férias fazendo poses sensuais, ameaçando tirar a blusa como a insinuar-se para alguém.

Quando vemos notícias de meninas de 11 anos sendo forçadas a casar-se em algum país de cultura e geografia distantes da nossa, ficamos indignados, torcemos o nariz, achamos absurdo.

Afinal, em que exatamente nos diferenciamos dessas práticas ao permitirmos a erotização de nossas crianças?

 

 

 

 

 

 

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